Histórico


    Votação
     Dê uma nota para meu blog


    Outros sites
     UOL - O melhor conteúdo
     BOL - E-mail grátis


     
    Alex Bezerra de Menezes


    Meus caros amigos e leitores: foi necessário que eu mudasse o endereço desta coluna, então queiram por favor anota o novo endereço:

    http://alexmenezes.zip.net/

    Os aguardo lá.

    um abraço.



    Escrito por Alex Menezes às 01h00
    [] [envie esta mensagem] []



    Que Pena Brasil!

            ....Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato exonero...

    Ao detectar que os filmes de maior sucesso do Brasil são aqueles em que o herói/protagonista/tema circulam pelo submundo do crime é um sinal temerário. Um mau sinal. Do mesmo modo que os britânicos se comprazem com a família real, nós nos comprazemos com a miséria produzida nos morros e favelas deste país-continente. Sendo necessária a produção de heróis para embalar e camuflar nossa tibieza e falta de noção de realidade. A TV Mackenzie, canal provavelmente visto apenas por quem o produz, numa matéria sobre o Brasil, levou às ruas uma foto do Zé Carioca, símbolo primaz da malandragem nacional, e outra do empresário Antonio Ermírio, signo de sucesso e trabalho. O repórter perguntou aos transeuntes com quem mais se identificavam os brasileiros: 84% apontou o Sr. Antônio. 

    É claro que os entrevistados mentiram. O empresário era o que eles gostariam de ser, o malandro nonsense, artífice na arte do “jeitinho” é o que necessariamente são. O brasileiro é o maior camaleão do mundo. Sob a máscara de povo hospitaleiro, feliz, alegre, festeiro e outros epítetos circenses é que ele planeia um modo de manter-se escondido, como uma lagarta por sob folhas.  Sempre se diz que o suíço é “meticuloso”, que o alemão é “inteligente”, que o russo é “sóbrio” (mesmo alcoolizado), que o japonês é “trabalhador”. O brasileiro é só “um povo feliz”.

    O custo naturalmente é alto. Uma nação é conhecida pelos “heróis” que cultua. No Brasil os heróis são cancerigenamente degradantes como as bandas de axé, apresentadores de TV, atrizes e artistas descerebrados. Não pode ser levado a sério um país que leva 50 mil náufragos da existência para prestigiar um show de pagode, outros milhares para performances de funk. Para não fazer crer que a asserção é feita por horror ao que é popular (que é diferente de popularesco) um herói genuíno que é ator principal de uma manifestação popularíssima, Mané Garrincha, morto há 25 anos no dia 21 de janeiro, sequer é resenhado pelos grandes jornais do país.  

    A debilidade do estado de coisas é claramente mostrada num índice: desde que passou a ser monitorado em 1979, os homicídios no Brasil atingiram o cabalístico número de 1 milhão. 1 milhão, senhores compatriotas. 27 mil assassinatos por ano em média. O pico foi em 2003, com 51 mil homicídios. Nem Angola com 15 anos de guerra civil atingiu tal índice. A culpa é do Silvio Santos. A culpa é da Banda Calypso. A culpa é da Xuxa. A culpa é da Ivete Sangalo. A culpa é do Xororó e Chitaozinho. A culpa é da Sandy e do Júnior. A culpa é da Regina Duarte. Todos eles, do alto de suas fortunas e fama inabaláveis, têm sangue nas mãos. Prendê-los imediatamente talvez não resolvesse, mas já seria o início da solução.

    Nenhum político pode ser responsabilizado por esse volume de mortes, o povo não sabe o que são políticos, suas funções, atribuições, responsabilidades. O povo não sabe que um ministro foi indicado para uma pasta (Minas e Energia) que não faz a mais vaga do que é uma simples tomada, problema menor, a saber que o nome de sua família está envolta em negócios espúrios, como é a regra. O povo sabe com quem Juliana Paes se deitou na semana passada ou se um artista é gay ou cheirador de cocaína. Quem dirige o povo é a mídia, então, pelo princípio aristotélico, os midiaticos têm de ser responsabilizados.  

    Num episodio dos Simpsons, um gerente contratado para supervisionar Homer Simpson na usina onde este trabalha decretou: “É praticamente um milagre que você ainda continue vivo”, após constatar o grau de estupidez da personagem símbolo da mediocridade norte-americana. É um milagre que ainda possamos nos equilibrar vivos em meio a tanta tragédia. A propaganda estatal diz que o melhor do Brasil é o brasileiro. Outro engodo. Povoado por macacos-pregos o país sairia muito melhor na aldeia global. O primitivismo do Brasil é o maior de todos os desafios a se vencer.

    ...Isso aqui ô ô/ é um pouquinho de Brasil ai ai...



    Escrito por Alex Menezes às 01h46
    [] [envie esta mensagem] []



    O Incrível Caso dos Espermas nos Tribunais

    Realmente! Eu fiz um acordo comigo com o objetivo de não mais me espantar com nenhum artifício produzido pelos meus semelhantes. Mas realmente! No acordo fiz os mais improváveis absurdos serem não só prováveis, mas também serem ratificados e aceitos pelas três grandes religiões do mundo, com inserção aposta em cada um dos cânones sagrados; do Torá ao Corão, apêndice ao livro sagrado de umbanda, se existir. Realmente!

    Uma corte do estado norte-americano de Boston me fez de bobo. Enterrou minha esperança de não-espanto. O juiz de lá decidiu o seguinte: que o esperma, fluído mormente saído das entranhas e da irresponsabilidade do homem, pertence à mulher. Simplesmente. O caso se deu por conta de um fato folhetinesco.

    Um casal, Richard Phillipps e Sharon Irons, eram namorados. Ela engravidou dele. Ele a acusou com esses mimos típicos de ruptura amorosa: “Traição calculada, pessoal e profunda”. O motivo? O modo como ela engravidou. Um modo diferente e criativo. Pensou num malabarismo sexual? Errou. Errou acertado.

    A peça jurídica revela o que nenhum noveleiro ousaria escrever. Sharon fez uma traquinagem. Depois do sexo oral, em vez de seguir o padrão e a etiqueta, (perdoe a desbrandura, mas é meu ofício relatar o fato) e ejetar o líquido ou degluti-lo como a um néctar viscoso, a imaginosa Sharon resolveu guardar o sêmen e depois tê-lo usado para engravidar. A questão que não quer calar e que os jornais não contam é se tinha ela um aparato pronto para acomodar o esperma, imagino broxante um ambiente com tubo de ensaio, hidrogênio líquido para conservar os meninos. Devia estar no banheiro o equipamento, ou a cópula (?! Sexo oral é considerado cópula?) foi executada em pleno laboratório, lugar mais exótico e instigante. De qualquer forma, é uma proeza. Já pensou a moça, a boca repleta de micros Richards, dizer como quem precisa atender o telefone com o Cepacol que não pretende descartar por ódio ao capitalismo ou simples sovinice:

    - Glub glub glud... (glubs) vol..(glub) to honey...       

    - Hei, honey onde pensa que vai com a boca assim, dê cá um beijinho...

    Richard disse que só soube da inusitada existência da criança quando Sharon ajuizou ação reclamando pensão alimentícia. Um teste de DNA e estava comprovada a paternidade. No Direito, existe um instituto chamado jus esperniani literalmente o “direito de espernear” do réu que não adiantou para comover o juiz. Diz a sentença: “Os juízes da corte de apelação descartaram as pretensões quanto à fraude e ao roubo, afirmando que 'a mulher não roubou o esperma'.

    O colegiado se sensibilizou com o depoimento de Sharon. Ela disse o seguinte: “Quando Richard entregou o esperma ele me deu um presente”. Naturalmente, para o tribunal o que ocorreu foi um mero contrato, ainda que precário escrito no viço inquieto daquela porção orgíaca, e concluiu: 'Houve uma transferência absoluta e irrevogável de título de propriedade e não houve acordo para que o depósito fosse devolvido quando solicitado”.

    Que a apreciação do mérito flerta com uma meia-verdade é uma verdade inteira, mas perceberam a sutileza? Depositados em recipientes suspeitos todos os pretensos proprietários do próprio esperma hão de calcular e solicitar com todo o romantismo que o momento pede após a conclusão de tão nobre ato:

    - Minha senhora, poderia me devolver isso aí que escapou de mim?



    Escrito por Alex Menezes às 23h21
    [] [envie esta mensagem] []



    Ensaio Sobre a Culpa - Atonement

    O filme “Desejo e Reparação” Atonement no título original, que segundo a intelectual suiço-brasileira Nathalie Stahelin “atonement é uma palavra inglesa rebuscada, sofisticada”, adjetivos que quadram bem ao longa-metragem delicadamente dirigido pelo inglês Joe Wright. A sofisticação vem da narrativa brilhantemente adaptada do já célebre romance do escritor Ian Mc Ewan, e o rebuscado da sutileza com que é captado e alinhavado cada feixe dos pequenos acontecimentos que destroem duas vidas. Raramente uma fita transpõe para a tela aquilo que só a linguagem silenciosa dos livros é capaz mostrar.

    O tema principal é a culpa, a expiação por um mal deliberadamente cometido.

    O psicanalista Contardo Caligaris escreveu que o filme revela essa nossa incapacidade de lidar com a culpa que ele demonstra vir desde o berço, do leite materno que sorvemos impunemente até nos darmos conta de que o leite é de um seio, o seio de um dono, o dono é alguém com quem automaticamente contraímos uma dívida.

    No filme, atormentada pela culpa como um Raskolnikov moderno, a pequena Briony (Saoirse Ronan) não vive mais a sua vida após cometer um crime: o de acusar injustamente seu pseudo-cunhado por quem nutre uma paixão infantil, de um pseudo-estupro e por tabela destrói a vida de sua irmã. Quem mais sofre no filme é essencialmente aquele que deve sofrer e não é o sujeito que ficou preso injustamente, mas agudamente a pessoa que o acusou. Como isso se dá? Pela dor mais pungente que nos toca a alma: a da consciência, quando se a tem.

    E ela felizmente é dotada dessa “consciência punitiva” que a obriga a remoer e jamais desatar os laços do dramático nó que atou em derredor de pessoas de sua estima, o que potencializa o martírio. Quando Raskolnikov mata a velha agiota está ciente de que matava “um símbolo” do estado decrépito da sociedade moderna, não uma pessoa, o que em tese solapa seu dissabor pelos efeitos do assassínio.

    Todos temos culpa, o simples ato de nascer já configura culpa, talvez por termos usurpado o lugar de outros milhões de candidatos à vida naquele momento crítico que precede a fecundação. E ela talvez se inicie quando, ao nascermos, choramos sofregamente, contrariando o axioma shakesperiano que diz que chorarmos ao nascer porque iremos entrar nesse vale de demências.



    Escrito por Alex Menezes às 23h42
    [] [envie esta mensagem] []



    KAROSHI – DRAMA E POESIA

    Na primorosa canção “1º de Maio” de Milton Buarque e do Chico Nascimento, há uma imagem de uma extraordinariedade acachapante, entoada na terceira estrofe que você já já irá ler se não estiver impaciente nem com o texto nem com o seu trabalho:

    A história da música retrata a mini odisséia de um operário em pleno Dia do Trabalho, feriado mundial, dia em que “a cidade está parada” ele irá encontrar a namorada: poemisa a primeira estrofe:

    Hoje a cidade está parada

    E ele apressa a caminhada

    Pra acordar a namorada logo ali

    E vai sorrindo, vai aflito

    Pra mostrar, cheio de si

    Que hoje ele é senhor das suas mãos

    E das ferramentas...

    A precariedade do trabalhador sem partido ganha ares de heroísmo na poesia, um heroísmo lúdico na figura do namorado que “apressa a caminhada/ pra acordar a namorada” contraponto exato ao homem que não se apressa para encontrar a jornada de trabalho tediosa e mal remunerada em regra, um trabalho que mói seu corpo e seus sonhos.     

    No Japão, um trabalhador que tinha consumido apenas 35 dos 78 anos a que tinha direito segundo vislumbra a expectativa de vida daquele país, morreu por excesso de trabalho: “Só encontrava felicidade na hora de dormir”, confessou ele à esposa. No Japão, tão endêmico é o caso de morte por excesso de trabalho, que há até um termo específico para o fenômeno: KAROSHI (KKARO= excesso de trabalho e SHI = Morte).

     

    O trabalhador da dupla Milton & Chico é a encarnação de um ideário já morto e sepultado pela necessidade de executar mecanicamente um serviço emburrecedor, que forja uma sociedade andróide que só obedece a sirena da usina.

     

    Segunda estrofe:

     

    Quando a sirene não apita

    Ela acorda mais bonita

    Sua pele é sua chita, seu fustão

    E, bem ou mal, é o seu veludo

    É o tafetá que Deus lhe deu

    E é bendito o fruto do suor

    Do trabalho que é só seu    

    A sirene muda do feriado faz a namorada acordar até mais bela: provavelmente operária de uma indústria têxtil, ela faz da sua pele sua “chita”, tecido grosseiro de má qualidade e já a transforma em “fustão”, uma seda nobre que se transforma em veludo, a pele como vestimenta nobre, “o tafetá que Deus lhe deu”. Há uma comunicação tão eloqüente entre a operária da música e o japonês assassinado, como se ela quisesse salvar todos os trabalhadores dessa firma cruel chamada Terra S/A.t. Sem Amor ao Trabalhador.

    Por fim:

    Hoje eles hão de consagrar

    O dia inteiro pra se amar tanto

    Ele, o artesão

    Faz dentro dela a sua oficina

    E ela, a tecelã

    Vai fiar nas malhas do seu ventre

    O homem de amanhã   

    O desfecho é necessariamente erótico. Os próprios heróis se entregam, incapazes de brecar a roda-viva, máquina de moer gente, juntam-se ambos os amantes para produzirem, como se eles mesmos fossem a extensão das indústrias onde trabalham, mais um homem, uma peça minúscula da imensa engrenagem que faz o mundo rodar torto, débil, claudicante.



    Escrito por Alex Menezes às 23h05
    [] [envie esta mensagem] []



    Ayrton Senna em Cartaz

    Tomado de alguma melancolia, resolvi dispersá-la pelas ruas da cidade, ingressei pela Marquês de Itu, espiei a Dona Veridiana e tombei na Baronesa de Itu, ganhei a Av. Higienópolis, emborquei na Maranhão, tentei a Piauí, preferi a Sergipe, fui dar na Angélica e reembocado na Higienópolis dei de cara com o que pedia meu inconsciente, um cartaz do tricampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna da Silva.

    Fitei-o, o macacão branco feito nuvem boa, o cadáver do piloto é que sorria, a foto captada com maestria pela lente de Norio Koike; estava ali o homem, apesar de morto, vivíssimo vendendo botas da marca Diadora, refiz o trajeto do olho, alinhei com o do pôster e calculei assim, “porra Ayrton você se f...” travei o pensamento como travo agora a escrita da palavra feia, o fim do pensamento era “se você tivesse vivo poderia estar por aqui, desfrutando de um monte de mulheres lindas, carrões de todo tipo, viagens ao redor do globo, e que merda fez você, essa de se meter a morrer precocemente, deixando o mundo todo a tentar desvendar o seu mito”, mas o Ayrton é desse tipo de gente estranha que precisa morrer para ser imortal, e foi lá, cheio de pressa, morrer para nunca mais morrer, estourar os miolos naquela curva estúpida e foi aí que...

    ... E foi aí que entendi que ele não se fodeu coisa nenhuma, fez foi um favor para si abreviando sua agitada vida; morto, não precisou ver aviões se debruçando sobre prédios indesviáveis em New York, outros que pousam nas selvas ou não freiam quando pusam, bombas a implodir trens, pontes, mesquitas, sinagogas, eleições, igrejas africanas, a milenar Cabul e a não menos Bagdá, tudo temperado com muita víscera humana, sem contar criança arrastada feito um novo Heitor carioca num carro com rumo e sem governo, outras queimadas num ônibus, acidentes, terremotos, tempestades, tsunamis, mensalões... Será que ele saiu perdendo tendo abdicado da vida?

    O Tricampeão vivia, estava lá, repleto de pose, garoto propaganda obediente, sorriso de quem está prestes a rever a mãe depois de longo tempo ausente, eu é que estava morto, confinado no meu próprio corpo absorvendo tragédias, o campeão vive, um campeão não morre jamais.



    Escrito por Alex Menezes às 02h34
    [] [envie esta mensagem] []



    Um Homem de Valor – Fagalima Tuatagaloa

    ...Ninguém quis entender os motivos que levaram o magnata Fagalima Tuatagaloa a dispersar toda sua imensa fortuna em doações espaciais. Espaciais.

    Tuatagaloa guiava pela cidade distribuindo toda forma de riqueza: uma obra de arte para aquele mendigo, uns lingotes de ouro para aquele banqueiro, um chumaço de apólices para um lavrador, um carteiro não pôde acreditar quando grudou na sua pesada mochila maços simetricamente arranjados contendo centenas de notas européias e fustigou seu benfeitor:

    - Terei de declarar ao Fisco essa soma, seu inútil!   

    A comitiva do excêntrico milionário observava com atenção e cautela os gestos daqueles que ignoravam ou mesmo negavam com veemência os prêmios distribuídos sem causa por aquele homem de semblante escandinavo, acessório facial que tornava sua aparência distintamente comum e forasteira.

    Quanto mais a bagagem de riquezas era subtraída, mais parecia dela florescer insumos de alto valor, jóias, relíquias sacras, mantimentos da Antiguidade e os naturais objetos da cobiça humana. Seria ele um mágico oriundo das profundezas do passado?

    A carreata estancou o passo quando passou defronte ao parlamento e todos os parlamentares ultrajantemente vestidos de meio-fraque e sobrecasaca irromperam das escadarias com grande alvoroço, manobras incompatíveis com a vestimenta inglesa, apropriadas para seus caráteres; surrando com seus cromos- alemão os degraus amorfos (como eles) daquele prédio medonho, chegaram até a carruagem e fitaram Fagalima Tuatagaloa que os ouviu com prazer:

    - O que pensa fazer? Sua ação está dinamitando os alicerces da nossa aldeia, a distribuição de dinheiro não trará igualdade ao nosso povo; as regras da Economia são o mais perfeito mecanismo já criado pelo homem. Veja o caso dos diamantes. É vendida a falsa idéia de que eles são raros e para quê senão para manipular seus preços no mercado internacional? Os estoques de gemas chegam às centenas de toneladas e jamais serão postas à venda, se não o preço despenca. Sua atitude, além de danosa é extravagante. Quem vai confiar na boa-fé de um homem que se desliga de sua própria fortuna? Olhe bem, se quiser postergar seu nome, envergue sua pontaria para atos que calam mais fundo na memória dos homens, sim, promova uma guerra, confabule com as entranhas da Terra e dela peça um terremoto, uma catástrofe epidêmica, qualquer atitude que seja arrasadora, mas desde que seja algo que faça correr muito sangue e lamentações; reúna seus esforços e seu poder para desestabilizar as forças regionais, polua as mentes influentes com uma injúria bem feita, uma calúnia que honre a memória de algum inimigo e ai o respeito e a fama estará garantida, desvirginará os vindouros séculos. É uma esparrela inútil se meter a ajudar as pessoas. Há exemplos...

    Fagalima raciocinou com vagar e tão pesado pensamento fulminou seu espírito de tal sorte que este imediatamente se desvinculou do seu corpo que necessitava de espaço para acondicionar o alvitre.

    - Farei do seu alvitre a mola mestra das minhas futuras ações. Guardas! Prendam esses homens elegantemente vestidos. Tenham cuidado apenas para não amarrotar seus lindos coletes.



    Escrito por Alex Menezes às 00h17
    [] [envie esta mensagem] []



    - Vou me Casar

    Da Muralha da China boa parte do “tudo” se pode ver.

    De certo ponto do espaço, pode-se ver a Muralha. As outras coisas visíveis do espaço pedem mistério.

    Noites dessas, olhando uma estrela jazida no céu minguante interroguei-a sobre como é a emoção de ver do seu privilegiado ângulo todas as coisas passadas aqui em baixo neste carrossel infindo de milênios e trilhênios; flagelos e delícias: vá lá, mas um que o outro. 

    - Vou me casar.

    Um casamento equivale à construção duma muralha, obra assaz penosa e dispendiosa, não rara exposta às dificuldades dos penhascos escarpados, das intempéries que não são raras nem batem com aquela força de martelo, que estraçalha e finda, mas com a força de verruma que machuca mais lentamente, dilacera mais lentamente.

    - Vou me casar.

    Casem-se, mas pensem-se.

    O promissário casador só deveria se casar se houvesse um contrato que viger fora da esfera jurídica conhecida, novidade antiga que chamo de “contrato mental”, que reza:

    “Casemo-nos, mas nem que chegues bêbado todas às vezes, não nos separaremos”.

    “Casemo-nos, mas de ti agüentarei, mesmo de mau grado, o mau hálito e o hábito novelesco, sem pensar em divórcio”.

    “Casemo-nos e mesmo que o cartão de crédito nos queira separar, não nos separaremos”.

    “Casemo-nos, e mesmo que a cor do nosso sofá não for do agrado de nossas respectivas mães, não nos separaremos”.

    Et coeterva.



    Escrito por Alex Menezes às 23h38
    [] [envie esta mensagem] []



    O Novo Herói

    Hércules, Museus Capitolinos, RomaHércules - Museu de Roma

    Conta-se que Teseu, iludido, enfrentou um leão decorativo sendo, portanto, sua coragem o que seduziu Hércules. Coisas das mais fáceis é ser corajoso, desde que se esteja no interior da pele de Hércules.

    É muito possível que se precisasse de um Hércules para diluir não grandes problemas, mas os mínimos, aqueles aborrecíveis como moscas.

    Dê-se a esse grande herói não um poderoso Touro de Creta para aniquilar, nem a tarefa de limpar um curral com 3 mil bois que há 30 anos nunca fora asseado, mas entregue a ele a missão de ignorar a necessidade de comprar aquilo que depois se vê inútil e enfiamos o filho de Zeus numa encruzilhada acerba, impondo ao semi-deus um castigo não imaginado por nenhum rei mau ou bom ou apenas rei.

    O herói desse atual futuro que ora nos corrói carece de virtudes só encontradas nas plantas ou nas fogueiras quando crepitam faíscas na noite fria. A excepcionalidade deste novo herói ignora músculos e pede filosofia que deve ser o músculo etéreo do cérebro, não raro tão potente quanto os encontrados nos bíceps e nas academias.

    Para se tornar ideal e eficiente e não descolado no tempo, o herói terá de abstrair e ignorar que é um herói, mecanismo indispensável para não ser tragado pela vaidade, câncer que ceifou a vida de muitos colegas ancestrais, como Aquiles que fez pouco caso da profecia de Janto, seu companheiro que cometeu o equívoco de ter nascido cavalo. 

    O próprio Hércules celebrado pela valentia que o postergou teria de passar por uma graduação nas novas leis que norteiam o sadismo nacional, como a audácia dos governantes e a inércia dos governados, posto entre esses ambos, ele tenderia a entediar-se e pode-se especular que não usaria nem a força física nem a intelectual e, sem querer tentar contra a memória do grande grego, fica a sugestão d´ele se aliar aos autores do colapso político com grave risco de sedimentar-se e reviver sua tragédia que em vez de uma camisola envenenada, será a apreciável ignorância alheia, tão necessária para a evolução das nações.

     



    Escrito por Alex Menezes às 02h05
    [] [envie esta mensagem] []



    Ode à Liberdade

    Um homem foi acorrentado em “cadeias indestrutíveis” e posto em praça pública para ser linchado e lapidado pública e verbalmente por todos os cidadãos.

    As lágrimas do homem saiam dos seus joelhos e o fenômeno tão notável quanto seu crime ignominioso não chamava a atenção dos circundantes que se enfureciam com a indiferença do seu semblante já que todos o olhavam a partir do torso superior. O homem permaneceu preso às cadeias sem lastimar um momento, às vezes grunhia alguma coisa e todos acorriam para expiar o lamento, mas eram apenas insetos que se instalavam nas suas vias aéreas ou se alojavam no seu ouvido e o grunhido era a ferramenta para fustigá-los, sem machucá-los. Faziam-se vigílias permanentes para ver no homem um lamento, um esgar que fosse, mas ele não sorria, não chorava.

    As apostas se tornaram constantes e disputadas; algum dia aquele prisioneiro teria um reclamo, uma afronta à sua sorte. A convivência com o espetáculo mudou a rotina do lugar, senhoras bondosas levam legumes ao encarcerado que murchavam ou reviviam quando tocavam o solo fértil, água ele recusava, fitava o astro diurno com altivez, dilatando as pupilas, como a querer fixá-lo dentro de si, ficando todavia cabisbaixo para o astro noturno e a peculiaridade disto intrigava a assistência, sempre ávida de explicação.

    O volume de pessoas crescia a cada dia, as apostas se transformaram em ações e eram cotadas e negociadas na Bolsa de Valores com ganhos de 8 para 1 a quem apostasse num repentino lamento do homem que resistia olimpicamente às ferroadas de abelhas, esguichos de cães amestrados, insultos de pássaros a chuva ácida que caia e nada disso contribuía para separá-lo da vida, até ali tão cara para ele.

    Imediatamente ao vigésimo quarto dia todas as pessoas choravam ao ver o deploro em que estava o homem, os carros batiam, o trânsito caoticava, as famílias iam se diluindo até que todos deixaram o homem em paz e o pouparam de suas atenções. Todos os consultórios psicanalíticos ficaram lotados, todos perturbados diante do flagelo daquele homem pareciam padecer mais do que ele próprio e procuravam ajuda na homeopatia, no suicídio e nas metas freudianas que pregam o suplício da alma; foi unânime entre os terapeutas que a situação era de epidemia psíquica, causada pela inércia do pretenso sofrimento alheio que todos sentiam mais que o próprio vitimado não demonstrava e enfim, veio a depressão geral.

    Colocado em liberdade dos olhares o homem pôde descansar do seu destino, aguardou ansioso pela chegada do raio ofuscante do sol e nele se banhou, como se aquele fosse seu último e fatal desejo. Nem bem chegou a noite, os secretários legais desataram as cadeias que prendiam o homem ao obelisco central, rumaram com ele pela penumbra e o depositaram numa urna blindada, que foi convenientemente selada num invólucro de chumbo e jogada no alto mar que abriu sua eterna vaga e o aceitou sem oscilar a gangorra, sem emitir sequer um sinal de reprovação o abrigou na profunda fossa da escuridão.



    Escrito por Alex Menezes às 23h09
    [] [envie esta mensagem] []



    O Galpão ou a Revolta das Domésticas – (Conto)

    Foi com alguma surpresa que os habitantes da cidade litorânea de Barra de Serinhaém receberam a notícia da rebelião das empregadas domésticas. Não houve sequer um planejamento da ação; todas decidiram se rebelar contra os patrões da forma menos prejudicial à sua segurança com o silêncio, aqueles homens opressores, feitos de esperma e não de gratidão.

    Os milenares maus tratos não foram exatamente os motivos alegados para a greve, antes uma onda de enfado coletivo atacou as empregadas daquele lugar. Os patrões desprevenidos lançaram campanhas para a substituição das desertoras, mas o sucesso do intento foi nenhum. Em dois meses as pias e os tanques eram os lugares mais caóticos das casas abastadas, era comum que altos executivos aparecessem em reuniões com os vincos das roupas enviesados, quando não manchados por mistura de cores. As donas de casa, que só guardam tal título de “donas” por tradição já que não lavam não cuidam dos bebês e nem dos maridos, promoveram assembléias para delinear um plano emergencial contra a insurgência das lavadeiras; lá deliberaram sobre aumentos salariais, plano médico extensivo aos vizinhos das empregadas e até transigiram sobre eventuais jóias furtadas, ainda que as de estima.

    A publicação da ata nos principais veículos de comunicação não garantiu o fim da revolta; todas as empregadas permaneciam impávidas, ao abrigo de suas vontades. Algumas patroas em desespero sugeriram uma luta armada contra as serventes de campo, era uma questão de vida e morte, caso elas mesmas tivessem de lidar com fogões, máquinas de lavar, entender e aceitar a pronúncia da palavra rodo, calcular o uso da vassoura e o aroma do Pinho Sol.

    O Galpão onde estavam alojadas as empregadas passou a ser alvo de protestos; primeiro com pichações, depois com o advento de granadas que custou a vida de uma delas, que ousou dizer não à sua família protetora. A saída encontrada pelos maiorais de Barra de Serinhaém foi sitiar o Galpão e em conluio com as estatais fornecedoras de energia e água (cujos diretores também eram vítimas da revolta) promoveram o corte no fornecimento de água e energia do Galpão que já era escuro e seco por natureza. Com tochas e capuzes os principais patrões da cidade ameaçaram atear fogo na fortaleza, mas foram impedidos pela força policial que sugeriu em vez de fogo, uma mudança na Constituição que previsse a insurgência de subalternos com sanções severas, como a extinção de seus antecedentes. A solução foi considerada além de moderada um pouco morosa, já que seriam necessários três dias para aprovação e vigência e aplicação da nova lei.

    O cerco se estendeu por nove dias. Com a comida racionada, algumas empregadas recorreram ao canibalismo, iniciando o ato de caridade antropofágica com uma patroa ali mantida como refém. O pavor tomou conta da cidade. Uma a uma, as patroas foram dadas às insurgentes e logo eram devoradas pelas ex-colaboradoras. As cidades circunvizinhas entendiam que aquilo se tratava de hipnose coletiva, a estranha ação dos patrões em dar de bom grado e sem resistência suas esposas em sacrifício. Consumida a última mártir, as empregadas deixaram em fila indiana o Galpão e rumaram para as casas onde trabalhavam; foram recebidas com cerimoniosa pompa pelos filhos e herdeiros das casas abastadas, em transe, todas ignoraram a recepção, arrumaram suas malas e voltaram para prosseguir a revolta no interior do misterioso Galpão.



    Escrito por Alex Menezes às 17h39
    [] [envie esta mensagem] []



    Vende-se um Picasso; Portinari em Promoção

    Reprodução
    'O Retrato de Suzanne Bloch', de Pablo Picasso..
    Reprodução  e 'O Lavrador de Café', de Candido Portinari

    Tudo bem que Rembrandt nunca viu um Caravaggio de pertinho, exceto algumas copias, e ainda assim se inspirou grandemente no virtuose italiano para pintar suas “Rondas Noturnas”. Vou ficar muitíssimo magoado comigo se acontecer de abandonar a existência sem ver de perto obras como “O Desepertar do Escravo”, escultura inacaba de Michelangelo em que a figura parece tentar se libertar do bloco de pedra;  saborear “O Grito” de Eduard Munch, ver um Leonardo qualquer de perto: como nas canções dos Beatles, prefiro suas obras menos incensadas e conhecidas, como “Dama com Arminho”; é inquietantemente bela e agonizante, uma tela que evoca, inconscientemente, Shakespeare, (“o belo é feio, o feio é belo”, Macbeth) inconsciente porque o italiano “pressentiu” o outro pois morreu em 1519 e o inglês em 1616; vá lá o escritor se inspirou no pintor.

    Alguns artistas são melancólicos e taciturnos ou por natureza ou por necessidade e não raro entregues, à exceção de Diego Velázques e de Rembrandt (que como Mozart, foi sepultado numa cova anônima) à absorção de suas criações artísticas que justificavam suas existências. A entrega destes grandes espíritos artísticos nos legou obras magníficas; advirto para o fato de “grandes espíritos artísticos” não serem necessariamente grandes espíritos de convivência; imagine o que era acordar com os olhos flamejantes de Van Gogh invariavelmente tomados de cólera? Ou os surtos sinestésicos de Goethe que infundia pavor na sua pobre serva inculpe?

    O museu de arte de São Paulo, Masp, foi furtado em duas de suas mais expressivas obras, um Picasso e um Portinari. O acervo do Masp de 8 mil obras, segundo consta nos jornais de hoje, está avaliado em 17 bilhões de reais, uma soma fácil de mensurar, difícil de calcular. Três mequetrefes invadiram o museu com o mais ricos acervo da América Latina e quem guardava essa fortuna não apenas monetária, mas histórica? O Guarda Belo. Sim, o simpático guarda da Turma do Manda Chuva é que zelava pela segurança de peças como um ultra-raro Ticiano e um Rafael, talvez as telas mais raras e de valores incalculáveis do museu. Tinham seguro tão espetaculares primores da arte? Não senhor. O Masp sequer paga as contas de energia, que dirá fazer seguro do acervo. Politicagens e vaidades impedem uma boa administração da Casa.

    Obras presentes em todos os catálogos de arte do mundo os ladrões, salvo se a empresa dos meliantes tenha sido encomendada por algum figurão egocêntrico, terão grandes dificuldades em repassar ambos os quadros: é aí que o engenho humano, que a complexidade do sistema de coisas, entra em ação para nos fascinar: penduradas na parede do museu, valiam milhões de dólares, armazenadas da despensa de uma casa sub-reptícia elas valem apenas um tíquete para a cadeia. Enquanto públicas, eram minha e sua; hoje pode estar num porta-malas de carro, na posta-restante de um caixeiro viajante. Deixe disso, senhor ladrão e senhor suposto mandante, devolva minhas-nossas telas, não acha que vai enjoar de ficar olhando o lavrador?, e se ele resolver se rebelar e danar aquela enxada no seu cocuruto?; o retrato da Suzane Bloch só tem efeito artístico dentro de uma galeria, não a queria na minha sala, como quer o humorista José Simão, olhando bem, ela parece mesmo o Silvester Stallone; devolva-as antes da rebelião.



    Escrito por Alex Menezes às 13h24
    [] [envie esta mensagem] []



    O Velho Chico e o Bispo da Fome

    Pela honra e pela glória a gente faz muita bobagem. Pela astúcia e pela inércia, alguns delitos; pelo honorífico título de mártir já vi muita gente boa (e má) sacrificar uma vida de paz e tranqüilidade podendo engordar feliz, como aquele Ezequiel bíblico, debaixo duma amoreira selvagem e até infrutífera.    

    Inicio o texto sem clara certeza se condeno ou louvo a atitude hagiográfica do bispo Luiz Flávio Cappio de sustar a necessária alimentação pessoal como forma de protesto para barrar a transposição do Rio São Francisco. Greve de fome é um curioso recurso que certas pessoas adotam para ver atendido um anseio íntimo ou público; eu não faria. O estômago é dos únicos órgãos que não pode tirar férias; o anedotário está aí para não me desdizer; diz-se muita vez que fulano não tem coração, que beltrano não tem cérebro, que o fígado daquele outro pifou, mas para a suspensão do uso do estômago nenhuma mente, por mais brilhante ou vazia, criou uma anedota. O máximo que há é dizer que o pretérito moço tem “um estômago de avestruz”, prova que une a ciência e o popularesco para provar que ele aceita qualquer coisa para triturar. O estômago é o órgão mais filosófico do corpo humano. 

    Sucesso imediato terá o primeiro candidato a mártir que, negando a secular tradição de inanição, em vez de enfiar vazio nesse balão abdominal, abastecê-lo com doses alopáticas de guloseimas, no caso do bispo, pode até ser guloseimas sacerdotais. A maranha envolta na polêmica é de tal modo complexa que não tenho formado juízo sobre se deve ou não mudar o curso do rio, que talvez corra no mesmo percurso bem antes de se ter inventado bispos e lucros; o lucro nada mais é do que uma forma pagã de sacerdote. Que me diz você? Vamos lá, meta o bedelho nessa arenga lacustre, não importa sua profissão, seja médico ou garimpeiro, coveiro ou alfaiate, o importante é opinar, causar sensação. 

    Posso até lhe ajudar com alguns dados interessantes. A previsão é que a monumental obra de engenharia consuma insubstanciáveis 5,2 bilhões de reais, soma vultuosa e que merece alguma consideração, por mais carola que seja você; o consórcio que morrerá de inanição pecuniária caso a causa do bispo frutifique, deve ter tantas pendências com o INSS que seria obrigado a indenizar todas as gerações de bispos daqui e alhures; o presidente Lula, sonhando com a fundição em bronze de um seu busto na galeria dos heróis nacionais, crê necessária a transposição do “Velho Chico”, que apesar de velho, parece não caducar.  

    Como minhas soluções são em regra extravagantes e com pitadas sonoras de excentricidade, ergo timidamente a bandeira de que tem de haver uma transposição dos povos nordestinos sem água que estão longe do rio; mande-se todo o povaréu para a beira do rio, obra quiçá mais onerosa, mas de popularidade certeira, pois a se prometer a fundação de uma nova cidade, toda a economia ganha, toda a igreja, com a consagração de novos cônegos e demais prelados e a máquina política com a carência de prefeituras que requerem prefeitos, que requerem vereadores, que requerem salários, que requerem propinas, que requerem munícipes, que requerem progresso e aí sim finda essa torturante quadrilha que em nada deve à famosa de Drummond: Carlos amava Dora, que amava Pedro que amava Paulo que amava a filha... e tudo termina assim, sem greve de versos.



    Escrito por Alex Menezes às 22h26
    [] [envie esta mensagem] []



    Criminosos do Brasil: Matem-me

     

    Todo mundo gosta de falar de problemas macros; eu gosto dos micros. Enquanto todos se debruçam a desvendar os descaminhos do fim da CPMF, eu prefiro olhar o saldo minguado da minha conta corrente e perceber que a mingua é permanente com e sem CPMF; o que são 0,38% de garfada nas minhas transações financeiras quando há sobre minha pessoa uma carga galopante que se eleva a dezenas de tributos “enrustidos”?; não é nada. A CPMF pelo menos tinha identidade, eu podia xingá-la enquanto ia dissolvendo meu saldo. O governo como é criativo, logo criará outro tributo menos popular na mídia e mais voraz no bolso, só que secreto, como os votos dos senadores; tudo é questão de nomenclatura.

     

    O delinqüente Chapinha que chacinou um casal de namorados (seviciando a moça) em dezembro de 2003, após réu confesso ser, após condenado ser, após ver-se, clinicamente falando, que não se poderia enjaulá-lo, colocaram o rapaz numa espécie de hotel 3 estrelas, às expensas dos pais das pessoas que ele selvagenmente aniquilou.

     

    A unidade prisional onde o pária está detido conta com: TV de 29’, colchões macios, copa cozinha, quadra poli esportiva (coberta), sofá (de couro), pia de granito, chuveiros modernos e, como na música do Caetano, “art nouveua da natureza, tudo o mais”. Naturalmente não se trata de, como explicou o ministro do Supremo, castigar e não recuperar aquele que comete grave lesão à sociedade, mas tudo tem limite, e o limite extrapola quando o governador José Serra em dueto com o Secretário de Segurança Luiz Antonio Marrey vem a público e dizem que “não tem nada de mais”. Eu nem os entendo nem os perdôo.

     

    O dedo e o cérebro pedem para eu escrever isto: “Ah, queria ver se fossem os filhos deles as vítimas de tão cruel assassino”. Mas o escritor não é só dedo e cérebro, é também intestino e tédio e gostaria de ver não os filhos das eminentes autoridades, mas ambos próprios defronte à desumanidade de um psicopata desta estirpe dotado de agudo desprezo pela vida humana, tratando a dor alheia como o homem trata a terra, com indiferença e até algum escárnio.

     

    Eu tenho muito medo das autoridades nacionais; dos criminosos guardo pouco medo, tão comuns eles se tornaram entre nós; todavia, entre uns e outros, prefiro os bandidos das ruas, porque têm a vantagem, apesar do grande volume, de serem esporádicos, grande vantagem sobre os oficiais, que são perenes e pior, assalariados por mim, fato que me torna duplamente lesado por eles, uma espécie de bis in idem que temos de suportar sem reproche. Todos os demais criminosos que puderam ver na TV o benefício que Champinha obteve por trucidar covardemente Liana e Felipe poderão me escolher como próxima vítima antes que eu, por anseio e inveja à mordomia vista (tenho muitas fraquezas), decida mudar de lado do caldeirão social e trucidar alguém que digamos, pisar numa flor que ainda não plantei.               

     

    Ps: sobre HAMLETO, eis a explicação: o texto de Shakespeare se baseia numa obra preexistente chamada Ur-Hamlet, de Thomas Kyd, escrita em 1589. É chamado então, por eruditos, “em respeito ao texto original” de Kyd, “Hamleto”, em vez do puro Hamlet. A peça de Shakespeare também é chamada de “Hamleto Primitivo”.



    Escrito por Alex Menezes às 10h44
    [] [envie esta mensagem] []



    Hamleto

    “... Ser ou não ser..., eis a questão. Que é nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras (...) morrer, dormir, dormir, talvez sonhar...é aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte (....) pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis morosas, a implicância dos chefes...”

     

    O escritor é o maior embusteiro entre todos os embusteiros criados pelo homem. Relendo pela undécima vez o Hamleto de Shakespeare, encontrei o embuste, pespegado neste solilóquio que é o mais famoso de toda dramaturgia mundial. Quem nunca se viu a dizer “ser ou não ser, eis a questão” sem fazer a mais vaga idéia do que era esse “ser” e ou outro “ser”. Eu por exemplo não vago.

     

    O escritor nos engana ao botar na boca do príncipe dinamarquês tais pensamentos, tais injúrias contra a tempestiva organização de coisas a que chamamos civilização. Simples. Hamleto era herdeiro de um grande reino. Injustiças, maus tratos dos tolos, amor negado, leis morosas, chefes autoritários, toda essa gama de coisas são característicos de nossas vidas de misérias, não podendo jamais alcançar um príncipe – tanto menos numa época em que reis estavam acima da lei, do bem e do mal, valendo-se do seu “direito divino” de governar.

     

    Quem fala ali é o próprio Shakespeare, ele mesmo vitimado por uma vida de flagelos e maus tratos de tolos de toda espécie. É o gênio dele se expressando na voz de uma das mais extraordinárias criações ficcionais de que se tem notícia. Hamleto é tão complexo na sua loucura, tão simples nos seus desejos, que penso que só podíamos encontrar pessoas de carne e osso assim nos consultórios de cirurgia plástica.

     

    A dúvida do príncipe em por que aqueles que sofrem esses inconvenientes da vida simplesmente não dão cabo dela por “não saber quais sonhos trarão o sono da morte” adverte-nos da preocupação do bardo com o além-túmulo; seria melhor o sofrimento já sabido nesta dura vida do que a incógnita da morte “país desconhecido de cujo âmbito ninguém jamais voltou?”.

     

    Senhor Shakespeare, ainda degustada com dores de parto, viver vale mais, muito mais do que morrer.



    Escrito por Alex Menezes às 00h43
    [] [envie esta mensagem] []




    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]