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Vende-se um Picasso; Portinari em Promoção
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'O Retrato de Suzanne Bloch', de Pablo Picasso.. |
e 'O Lavrador de Café', de Candido Portinari |
Tudo bem que Rembrandt nunca viu um Caravaggio de pertinho, exceto algumas copias, e ainda assim se inspirou grandemente no virtuose italiano para pintar suas “Rondas Noturnas”. Vou ficar muitíssimo magoado comigo se acontecer de abandonar a existência sem ver de perto obras como “O Desepertar do Escravo”, escultura inacaba de Michelangelo em que a figura parece tentar se libertar do bloco de pedra; saborear “O Grito” de Eduard Munch, ver um Leonardo qualquer de perto: como nas canções dos Beatles, prefiro suas obras menos incensadas e conhecidas, como “Dama com Arminho”; é inquietantemente bela e agonizante, uma tela que evoca, inconscientemente, Shakespeare, (“o belo é feio, o feio é belo”, Macbeth) inconsciente porque o italiano “pressentiu” o outro pois morreu em 1519 e o inglês em 1616; vá lá o escritor se inspirou no pintor.
Alguns artistas são melancólicos e taciturnos ou por natureza ou por necessidade e não raro entregues, à exceção de Diego Velázques e de Rembrandt (que como Mozart, foi sepultado numa cova anônima) à absorção de suas criações artísticas que justificavam suas existências. A entrega destes grandes espíritos artísticos nos legou obras magníficas; advirto para o fato de “grandes espíritos artísticos” não serem necessariamente grandes espíritos de convivência; imagine o que era acordar com os olhos flamejantes de Van Gogh invariavelmente tomados de cólera? Ou os surtos sinestésicos de Goethe que infundia pavor na sua pobre serva inculpe?
O museu de arte de São Paulo, Masp, foi furtado em duas de suas mais expressivas obras, um Picasso e um Portinari. O acervo do Masp de 8 mil obras, segundo consta nos jornais de hoje, está avaliado em 17 bilhões de reais, uma soma fácil de mensurar, difícil de calcular. Três mequetrefes invadiram o museu com o mais ricos acervo da América Latina e quem guardava essa fortuna não apenas monetária, mas histórica? O Guarda Belo. Sim, o simpático guarda da Turma do Manda Chuva é que zelava pela segurança de peças como um ultra-raro Ticiano e um Rafael, talvez as telas mais raras e de valores incalculáveis do museu. Tinham seguro tão espetaculares primores da arte? Não senhor. O Masp sequer paga as contas de energia, que dirá fazer seguro do acervo. Politicagens e vaidades impedem uma boa administração da Casa.
Obras presentes em todos os catálogos de arte do mundo os ladrões, salvo se a empresa dos meliantes tenha sido encomendada por algum figurão egocêntrico, terão grandes dificuldades em repassar ambos os quadros: é aí que o engenho humano, que a complexidade do sistema de coisas, entra em ação para nos fascinar: penduradas na parede do museu, valiam milhões de dólares, armazenadas da despensa de uma casa sub-reptícia elas valem apenas um tíquete para a cadeia. Enquanto públicas, eram minha e sua; hoje pode estar num porta-malas de carro, na posta-restante de um caixeiro viajante. Deixe disso, senhor ladrão e senhor suposto mandante, devolva minhas-nossas telas, não acha que vai enjoar de ficar olhando o lavrador?, e se ele resolver se rebelar e danar aquela enxada no seu cocuruto?; o retrato da Suzane Bloch só tem efeito artístico dentro de uma galeria, não a queria na minha sala, como quer o humorista José Simão, olhando bem, ela parece mesmo o Silvester Stallone; devolva-as antes da rebelião.
Escrito por Alex Menezes às 13h24
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O Velho Chico e o Bispo da Fome

Pela honra e pela glória a gente faz muita bobagem. Pela astúcia e pela inércia, alguns delitos; pelo honorífico título de mártir já vi muita gente boa (e má) sacrificar uma vida de paz e tranqüilidade podendo engordar feliz, como aquele Ezequiel bíblico, debaixo duma amoreira selvagem e até infrutífera.
Inicio o texto sem clara certeza se condeno ou louvo a atitude hagiográfica do bispo Luiz Flávio Cappio de sustar a necessária alimentação pessoal como forma de protesto para barrar a transposição do Rio São Francisco. Greve de fome é um curioso recurso que certas pessoas adotam para ver atendido um anseio íntimo ou público; eu não faria. O estômago é dos únicos órgãos que não pode tirar férias; o anedotário está aí para não me desdizer; diz-se muita vez que fulano não tem coração, que beltrano não tem cérebro, que o fígado daquele outro pifou, mas para a suspensão do uso do estômago nenhuma mente, por mais brilhante ou vazia, criou uma anedota. O máximo que há é dizer que o pretérito moço tem “um estômago de avestruz”, prova que une a ciência e o popularesco para provar que ele aceita qualquer coisa para triturar. O estômago é o órgão mais filosófico do corpo humano.
Sucesso imediato terá o primeiro candidato a mártir que, negando a secular tradição de inanição, em vez de enfiar vazio nesse balão abdominal, abastecê-lo com doses alopáticas de guloseimas, no caso do bispo, pode até ser guloseimas sacerdotais. A maranha envolta na polêmica é de tal modo complexa que não tenho formado juízo sobre se deve ou não mudar o curso do rio, que talvez corra no mesmo percurso bem antes de se ter inventado bispos e lucros; o lucro nada mais é do que uma forma pagã de sacerdote. Que me diz você? Vamos lá, meta o bedelho nessa arenga lacustre, não importa sua profissão, seja médico ou garimpeiro, coveiro ou alfaiate, o importante é opinar, causar sensação.
Posso até lhe ajudar com alguns dados interessantes. A previsão é que a monumental obra de engenharia consuma insubstanciáveis 5,2 bilhões de reais, soma vultuosa e que merece alguma consideração, por mais carola que seja você; o consórcio que morrerá de inanição pecuniária caso a causa do bispo frutifique, deve ter tantas pendências com o INSS que seria obrigado a indenizar todas as gerações de bispos daqui e alhures; o presidente Lula, sonhando com a fundição em bronze de um seu busto na galeria dos heróis nacionais, crê necessária a transposição do “Velho Chico”, que apesar de velho, parece não caducar.
Como minhas soluções são em regra extravagantes e com pitadas sonoras de excentricidade, ergo timidamente a bandeira de que tem de haver uma transposição dos povos nordestinos sem água que estão longe do rio; mande-se todo o povaréu para a beira do rio, obra quiçá mais onerosa, mas de popularidade certeira, pois a se prometer a fundação de uma nova cidade, toda a economia ganha, toda a igreja, com a consagração de novos cônegos e demais prelados e a máquina política com a carência de prefeituras que requerem prefeitos, que requerem vereadores, que requerem salários, que requerem propinas, que requerem munícipes, que requerem progresso e aí sim finda essa torturante quadrilha que em nada deve à famosa de Drummond: Carlos amava Dora, que amava Pedro que amava Paulo que amava a filha... e tudo termina assim, sem greve de versos.
Escrito por Alex Menezes às 22h26
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Criminosos do Brasil: Matem-me

Todo mundo gosta de falar de problemas macros; eu gosto dos micros. Enquanto todos se debruçam a desvendar os descaminhos do fim da CPMF, eu prefiro olhar o saldo minguado da minha conta corrente e perceber que a mingua é permanente com e sem CPMF; o que são 0,38% de garfada nas minhas transações financeiras quando há sobre minha pessoa uma carga galopante que se eleva a dezenas de tributos “enrustidos”?; não é nada. A CPMF pelo menos tinha identidade, eu podia xingá-la enquanto ia dissolvendo meu saldo. O governo como é criativo, logo criará outro tributo menos popular na mídia e mais voraz no bolso, só que secreto, como os votos dos senadores; tudo é questão de nomenclatura.
O delinqüente Chapinha que chacinou um casal de namorados (seviciando a moça) em dezembro de 2003, após réu confesso ser, após condenado ser, após ver-se, clinicamente falando, que não se poderia enjaulá-lo, colocaram o rapaz numa espécie de hotel 3 estrelas, às expensas dos pais das pessoas que ele selvagenmente aniquilou.
A unidade prisional onde o pária está detido conta com: TV de 29’, colchões macios, copa cozinha, quadra poli esportiva (coberta), sofá (de couro), pia de granito, chuveiros modernos e, como na música do Caetano, “art nouveua da natureza, tudo o mais”. Naturalmente não se trata de, como explicou o ministro do Supremo, castigar e não recuperar aquele que comete grave lesão à sociedade, mas tudo tem limite, e o limite extrapola quando o governador José Serra em dueto com o Secretário de Segurança Luiz Antonio Marrey vem a público e dizem que “não tem nada de mais”. Eu nem os entendo nem os perdôo.
O dedo e o cérebro pedem para eu escrever isto: “Ah, queria ver se fossem os filhos deles as vítimas de tão cruel assassino”. Mas o escritor não é só dedo e cérebro, é também intestino e tédio e gostaria de ver não os filhos das eminentes autoridades, mas ambos próprios defronte à desumanidade de um psicopata desta estirpe dotado de agudo desprezo pela vida humana, tratando a dor alheia como o homem trata a terra, com indiferença e até algum escárnio.
Eu tenho muito medo das autoridades nacionais; dos criminosos guardo pouco medo, tão comuns eles se tornaram entre nós; todavia, entre uns e outros, prefiro os bandidos das ruas, porque têm a vantagem, apesar do grande volume, de serem esporádicos, grande vantagem sobre os oficiais, que são perenes e pior, assalariados por mim, fato que me torna duplamente lesado por eles, uma espécie de bis in idem que temos de suportar sem reproche. Todos os demais criminosos que puderam ver na TV o benefício que Champinha obteve por trucidar covardemente Liana e Felipe poderão me escolher como próxima vítima antes que eu, por anseio e inveja à mordomia vista (tenho muitas fraquezas), decida mudar de lado do caldeirão social e trucidar alguém que digamos, pisar numa flor que ainda não plantei.
Ps: sobre HAMLETO, eis a explicação: o texto de Shakespeare se baseia numa obra preexistente chamada Ur-Hamlet, de Thomas Kyd, escrita em 1589. É chamado então, por eruditos, “em respeito ao texto original” de Kyd, “Hamleto”, em vez do puro Hamlet. A peça de Shakespeare também é chamada de “Hamleto Primitivo”.
Escrito por Alex Menezes às 10h44
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Hamleto

“... Ser ou não ser..., eis a questão. Que é nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras (...) morrer, dormir, dormir, talvez sonhar...é aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte (....) pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis morosas, a implicância dos chefes...”
O escritor é o maior embusteiro entre todos os embusteiros criados pelo homem. Relendo pela undécima vez o Hamleto de Shakespeare, encontrei o embuste, pespegado neste solilóquio que é o mais famoso de toda dramaturgia mundial. Quem nunca se viu a dizer “ser ou não ser, eis a questão” sem fazer a mais vaga idéia do que era esse “ser” e ou outro “ser”. Eu por exemplo não vago.
O escritor nos engana ao botar na boca do príncipe dinamarquês tais pensamentos, tais injúrias contra a tempestiva organização de coisas a que chamamos civilização. Simples. Hamleto era herdeiro de um grande reino. Injustiças, maus tratos dos tolos, amor negado, leis morosas, chefes autoritários, toda essa gama de coisas são característicos de nossas vidas de misérias, não podendo jamais alcançar um príncipe – tanto menos numa época em que reis estavam acima da lei, do bem e do mal, valendo-se do seu “direito divino” de governar.
Quem fala ali é o próprio Shakespeare, ele mesmo vitimado por uma vida de flagelos e maus tratos de tolos de toda espécie. É o gênio dele se expressando na voz de uma das mais extraordinárias criações ficcionais de que se tem notícia. Hamleto é tão complexo na sua loucura, tão simples nos seus desejos, que penso que só podíamos encontrar pessoas de carne e osso assim nos consultórios de cirurgia plástica.
A dúvida do príncipe em por que aqueles que sofrem esses inconvenientes da vida simplesmente não dão cabo dela por “não saber quais sonhos trarão o sono da morte” adverte-nos da preocupação do bardo com o além-túmulo; seria melhor o sofrimento já sabido nesta dura vida do que a incógnita da morte “país desconhecido de cujo âmbito ninguém jamais voltou?”.
Senhor Shakespeare, ainda degustada com dores de parto, viver vale mais, muito mais do que morrer.
Escrito por Alex Menezes às 00h43
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A Fé é Tão Velha que Pode Morrer...

Os próceres da Revolução Francesa não podiam crer que seus próprios sangues seriam derramados para expurgar e fazer o gran finale da insurreição. Alguma coisa disto tem a ver com o que hoje prometi, escrever sobre Fé e Tecnologia. O início do texto não me permite vislumbrar o elo entre uma coisa e outra; mas confiem em mim e em minha intuição.
Gadget. Esta novíssima palavra é o terror dos puritanos, religiosos e que tais. Gadgat é a tecnologia mutante, desesperadamente ávida de nascer e morrer num vórtice alucinante. Gadgats são: celulares, smartphones, PDAs, tocador de MP3, lap tops e por aí a fora. Errado: por aí a dentro. Pois é dentro de nossas cabeças e bolsos que essas traquitanas tecnológicas convulsionam nossas vidas. Viram o que aconteceu com “a Ferrari” dos celulares, o supra-adorado e esperado IPhone da Apple? A ansiedade causada pelo anúncio de suas vendas causou frisson e armação de barracas em Nova Iorque, para ser-se o primeiro a comprar, a possuir esse mimo que é quase um milagre (milagre?!) da tecnologia; o brinquedo tem até um sensor de gravidade que faz as fotos digitais mudarem de ângulo se a tela estiver na vertical ou horizontal. O que diria sobre isso (santo) Tomás de Aquino, o mais genial dos doutores da Igreja? Ele era “o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios”, devia ser bom mesmo o Tomás.
Aquino não gostava muito de falar, e por isso foi apelidado de “Boi Mudo” pelo seu preceptor, (santo) Alberto Magno. “Quando esse boi mugir, o mundo inteiro vai ouvir o seu mugido”. O boi tecnológico já mugiu, muge e continuará a mugir. Perdi a linha do raciocínio, droga. Vou tentar reatar os fios.
Aquino propôs as famosas “5 Vias de Demonstrações” da existência do Criador. A Primeira Via é a que nos interessa:
1a. via - Primeiro Motor Imóvel
Tudo o que se move é movido por alguém, é impossível uma cadeia infinita de motores provocando o movimento dos movidos, pois do contrário nunca se chegaria ao movimento presente, logo há que ter um primeiro motor que deu início ao movimento existente e que por ninguém foi movido.
Percebam que o pensamento racional do religioso (“Não pode haver contradição entre fé e razão”, disse ele num arroubo de sapiência e lucidez) é um modo avançado de pensamento não obstante a palavra e o dono dela viver na obscuridade do século 13 (1225-1274), época em que vigorava o teocentrismo, Deus como centro do mundo. Igual pensamento é tecnologia de ponta, como a do IPhone. Esse conhecimento hiper avançado não solapou a fé, antes, serviu de alicerce para gente como Leibniz (1646-1716) inventor dos números binários, (0+1) a linguagem informática; depois para Newton (1643-1727) símbolo máximo da moderna ciência; e Einstein, (1897-1955) produto final desse acúmulo de sagacidade que começou com Aristóteles (384-322 a.C) a quem Aquino reabilitou depois de passar 1500 esquecido.
O dilema agora é que a tecnologia não é abstrata, como as fórmulas matemáticas ou um pensamento filosófico; não, a tecnologia agora fala, se mexe, tem imagem, som, cores, virtualidade, é táctil e mais, está plenamente incorporada ao cotidiano; antes podia-se viver sem o pensamento cristalino de Aquino; hoje já não se pode viver sem celular, ou Internet. Essa tecnologia “facilitadora” da vida cria um abismo social (países pobres não acompanham o volume) e uma intensa ansiedade, que só a historiografia futura dirá que efeitos causaram nos homens.
A tecnologia então ceifará a fé? A resposta é advinhatória: ceifará. As previsões para até 2017 em termos tecnológicos são fantásticas. A WiMAX será a Internet em qualquer lugar, sem fio, e de forma ilimitada; os Pcs vão desaparecer; o Windows 2017 terá elementos de inteligência artificial; ele saberá o que estamos querendo e se adaptará a isso. A fé, que já parece arcaica para muitas pessoas, cairá no abismo da indiferença quando formos bombardeados por soluções que causarão alumbramento e inquietude nas pessoas; a informática é de longe a maior inimiga da fé, o anticristo perfeito.
Quando a nanotecnologia descobrir a cura do câncer e do HTLV3 (saudoso...) será jogada a última pá de cal nos que acreditam na fé e a partir daí um admirável mundo novo se abrirá diante dos que estiverem vivos para presenciar essa revolução que derramará menos sangue do que aquela Francesa, eis aí o elo, ex-perdido.
Escrito por Alex Menezes às 01h20
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O Papa x Fé x Computador x Kasparov

Assisti um documentário saboroso no The History Channel sobre a derrota do mega enxadrista Garry Kasparov pelo supercomputador, desenvolvido pela IBM, Deep Blue em 1997. A primeira e tola questão levantada era a de que “a máquina venceu o homem”. Tolice. O que ocorreu é que, uma vez que o homem criou a máquina ele próprio venceu a si. Quando a máquina criar um homem poder-se-á dizer que ela o venceu. Mas será que máquina “venceu” o homem...?
O que mais chamou atenção foi a suspeita de fraude nas partidas que decidiram a sorte do azerbaijiano Kasparov; um humano talvez tenha manipulado o computador secretamente. Deep Blue fazia 200 milhões de cálculos por segundo, (tinha 256 processadores!) e o principal, jogava como uma espécie de Pelé cibernético, isto é, sem o empecilho das emoções que levam à glória e no mais das vezes à derrocada, e Kasparov estava sob “imensa pressão” no jogo final. O detalhe é o capital. As ações da IBM subiram 15% após a partida vencida, os lucros chegaram aos bilhões de dólares; minha dúvida é: e se o enxadrista humano, não obstante seu imenso orgulho imensamente humano, estivesse mancomunado com a companhia e tudo, como um teatro tecnológico, foi encenado para delírio de uma platéia manipulável?
Sei não. Ou sei sim. Kasparov, nascido no Azerbaijão, é hoje radicado na Rússia, vira sem mexer é preso, como na semana retrasada, pela ferrenha oposição que faz ao governo do enigmático presidente russo Vladimir Putin, ex-agente da KGB (Comitê para a Segurança do Estado, a polícia secreta da URSS) e, portanto, herdeiro ideológico da tirania soviética; Kasparov quer-lhe a cadeira. Igual fato, por mais legítimo que seja, já o coloca na berlinda. A Rússia é hoje a maior fonte de corrupção estatal do planeta, ganhando – pasmem! – do Brasil, país com excelência e Phd (com Mba) neste ramo da economia de mercado, como então o gênio matemático dele quer solapar essa engrenagem impossível de ser parada?
Daí é que nasce minha suspeita de que houve uma tramóia no jogo que mobilizou o mundo 10 anos atrás. A biografia “pós-derrota” do supercampeão pesa contra. Especulações à parte, voltemos ao que nos postergou a história, a vitória limpa da máquina sobre o homem. Homem e máquina é uma versão diminuta do embate entre Deus e Homem; poderá o homem vencer a Deus por meio da tecnologia?
Benedito XVI divulgou a encíclica spe salvi, algo como “a fé na esperança para ser salvo”, como exortou o apóstolo Paulo numa carta aos Romanos (Romanos 8:38). O papa entoa, valendo-se de exegeses regimentais, o fato de o homem substituir a fé pelo progresso (tecnológico) e assim se distanciar cada vez mais do Criador; tudo pontuado por citações a pensadores cartesianos (racionais) como o ultra-metódico filósofo alemão Immanuel Kant; (as pessoas acertavam a hora do relógio quando ele saia para passear, RIGOROSAMENTE a mesma todas as tardes) há no documento papal uma sombra a Marx e seu comunismo ateu (nunca praticado como ele sonhara) que a Igreja tanto atacou até enfim ajudar a demolir em fins do século XX; esquecendo de citar outros movimentos “etnocêntricos” como o Iluminismo francês, o papa, homem dotado de grande inteligência-cultural, percebe a encruzilhada em que se encontra a humanidade neste estágio alucinante de tecnologias cada vez mais ferozes e velozes: a perda da fé. A substituição parece inexorável. A preocupação do patriarca da instituição mais antiga do mundo faz-se necessária, é um foco delicioso para debates; só uma coisa a tecnologia não irá substituir; a astúcia dos homens que engendram derrotas para simplesmente vencer. Amanhã retomo o tema tecnologia X Fé.
PS: muitos leitores perguntam porque uso “Benedito” em vez de “Bento” como consagrou a grafia portuguesa. Benedictus, do latim, ou Beneddeto, do italiano; o simples “Bento”, torna-se liberalidade que não encontra guarida na norma culta da língua.
Curiosidade de almanaque: a palavra papa tem dois significados:
Primeiro: Cada letra corresponde a uma palavra em latim:
P etri A postoli P otestantem A ccipiens
e se traduz: o que recebe o poder do apóstolo Pedro
Segundo: é o que corresponde a união das suas primeiras sílabas e estas palavras latinas:
PA ter PA stor
que se traduzem por Pai e Pastor
Escrito por Alex Menezes às 00h03
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“Quando eu me Encontrava Preso/ Na Cela de uma Cadeia...”

“O sistema carcerário é apenas o intestino de um organismo doente”.
Assim bem definiu a atual e sempiterna situação prisional do país o professor Carlos Guilherme Mota, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em entrevista ao Estado de São Paulo deste domingo.
As imagens dos presos acorrentados a pilastras no interior de Santa Catarina é um instantâneo da falência da sociedade brasileira que, perfurada pela morte institucional, está em coma profundo. Nas presigangas portuguesas dos séculos 14,15, era comum tratar os presos, como diz o professor, “fora do direito”, mas hoje 400 anos depois, parece insuportável ver cenas cabíveis apenas em livros de história. Parece insuportável, mas é perfeitamente tolerável.
Primeiro, como ensinou o gênio, suporta-se com paciência a cólica do próximo; eu suportei com muita tranqüilidade ver aqueles homens amarrados feito animais irascíveis e me preocupei não com o bem-estar deles; se eles ali prosseguissem para sempre não iria me aborrecer; o diabo é que um dia eles terão de ganhar a liberdade e é aí que está o nó górdio: eles vão sair. E o que será de mim? E o conforto da minha poltrona macia? Como, num dia de calor, deixarei a janela do meu carro aberta com aquelas pessoas à solta? Minha tranqüilidade acabará quando começar a deles.
No nosso modelo de “capitalismo feudal” os indesejados sociais são destratados, se usa burramente mecanismos cosméticos para tratar da segurança; nos anos 80 era a febre dos condomínios fechados, verdadeiras fortalezas difíceis de entrar e de sair; esquecendo-se que o mundo não se concentra num condomínio, a classe média viu-se obrigada a estender para os automóveis um pedaço de suas casamatas, blindando-os. É muito mais fácil.
A perversidade do governo e da alta casta econômica do Brasil causa cânceres dificílimos de serem tratados. O professor salientou as heranças políticas do Brasil como “capitanias hereditárias”, citando ACM e seu gérmen nocivo, ACM Neto, José Sarney e sua pupila Roseana e por aí afora.
Veja o caso do Renan Calheiros, peremptoriamente absolvido de uma chusma de acusações pelo fisiologismo mercadológico que impera no Senado e nos demais aparelhos sociais; ninguém ousou falar em prendê-lo, e olhe que ele infringiu 9 artigos do Código Penal. Ninguém! A perda do mandato ou do cargo de presidente do Senado é mais importante. Após o devido processo legal, Renan deveria, se condenado, ser preso, mas não acorrentado como seus colegas de atividades ilícitas de Santa Catarina, mas isso não irá ocorrer. Pedro Simon um dos melhores quadros políticos ratificou o que já virou senso comum: “Neste país só vai preso ladrão de galinha. Não tem ministro, parlamentar, ou empresário que vá para a cadeia. Eu, pessoalmente não gostaria de votar pela suspensão dos direitos políticos de Renan, o Senado aprova a CPMF. Essa é a verdade que deixa o Senado muito mal”
A desgovernadora do Pará, ao tomar conhecimento da prisão ilegal da menor na cela com homens conseguiu realizar uma proeza jurídica: editou um decreto proibindo que mulheres fossem presas com homens! Mas isso é lei federal que existe antes de ela existir! Nesse estado de penúria o Brasil vai se dissolvendo aos poucos, mas para quê pressa? Logo mais vem a panacéia do natal, algo carola, e a epifania do carnaval, mais diabólico e melhor adaptada à alma febril dos brasileiros que não se importam com políticos sendo absolvidos e nem criminosos tratados como bichos; eis aí o seu país, terra maravilhosa de encantos mil.
Escrito por Alex Menezes às 11h17
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Antonio Diógenes de Moraes

“Tende estima a homens desta sorte” pedia o Eclesiastes na sábia voz de Salomão, filho do rei Davi. Ter estima a homens que tentam obliterar a miséria do mundo é um meio econômico para quitar a dívida tácita que temos para com eles.
O empresário Antonio Ermírio de Moraes é desses homens dignos de ser ter estima. Lendo sua biografia diária em entrevistas, em matérias de jornais, nas peças (5) que escreveu, vê-se nele uma espécie de Diógenes capitalista, por mais paradoxal que isso possa parecer. Diógenes, criador da palavra “cosmopolita”, ficou célebre por desprezar o luxo e as convenções sociais. Sua casa era um barril. Não gostava de roupas. Quando viu uma criança se agachado no rio para beber água com as mãos jogou fora a cuia que usava: “Essa criança me ensinou que só preciso das mãos”. O antológico encontro que ele teve com o soberano da Macedônia é clássico: o rei, no zênite da glória após arrasar a cidade de Tebas, pergunta ao filósofo, que tomava banho de sol nu, se precisava de algo:
- Qualquer coisa?
- O que pedires.
- Qualquer coisa mesmo?
- Peças e serás atendido no teu desejo.
- Peço-te então que saias da frente do meu sol.
Os oficiais zombaram o rei pela petulância daquele pobre diabo diante do homem mais poderoso de toda Grécia, mas foram prontamente repreendidos pelo magnânimo líder:
- Não se riam. Eu, se eu não fosse o que eu sou, se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes.
Aos 79 anos de vida, Antonio Ermírio se tornou uma espécie de lenda viva, não pela fortuna que, em vez de o possuir, possui, mas pelo modo prosaico com que vive a vida. Ele acaba de inaugurar o hospital São José, homenagem ao seu santo de devoção. “A intenção é atender quem não tem condições de pagar”, disse o empresário. Ele é também patrono do Hospital Beneficência Portuguesa que das 325 mil pessoas atendidas em 2006, 60% provieram do Sistema Único de Saúde (SUS).
Antonio Ermírio não gosta de sair em colunas sociais. Apenas esse grande detalhe já me faz ser um seu fã, a tê-lo em alta conta. Sua malograda candidatura ao governo de São Paulo em 1986 foi uma vitória, em verdade: um homem de igual envergadura moral não podia tisnar sua biografia tentando converter a política e os políticos em exemplos de retidão, tarefa que só deve caber aos deuses e olhe lá.
O desprezo pela badalação, pela ostentação dos meios de vida não obstante figurar entre os mais ricos homens do mundo é um espanto tão espantoso quanto o desprezo a um nobre rei poderoso; é aí que reside o fascínio pelo homem. Sentar no banco da frente junto com o motorista, não visitar a piscina da casa, tirar férias a cada 35 anos, passar duas décadas sem comprar um terno, visitar siderúrgicas em plena lua-de-mel já virou folclore. No encontro com o sumo pontífice em maio último aqui no Brasil, Benedito XVI, conhecedor das obras do Sr. Antonio, o fustigou sacerdotalmente:
- Você está construindo seu lugar no céu.
- Não faço com essa intenção. Coisas trocadas eu faço no meu trabalho. Fora do trabalho, não troco nada. – respondeu.
Tenham estima a homens dessa sorte.
Escrito por Alex Menezes às 00h23
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Ursinho Maomé e Aquela Leitora

A professora Gillian Gibbons (Foto: Reuters)
A formosa leitora de nome prosaicamente blogosférico “Aquela”, me pediu para escrever sobre as peripécias chavistas na Venezuela. Não escrevo. Primeiro porque não gosto de Hugo Chávez e segundo porque não gosto de gente que se intitula “Aquela” e tudo bem. Quem seria Aquela? E se a Srta. Aquela na verdade, for Sra. Esta? Faço um apelo público: Mademoiselle Aquela queira, por favor, dar-nos um sobrenome, um quitute biográfico; não lhe quero o endereço para não configurar assédio; todavia já que me nos privou da identidade a tomarei com os olhos melífluos da Grace Kelly (orlados pelos cílios felinos de Liz Taylor), o quadril alucinante da Audrey Hepburn, o porte masculinamente suave da Diana Krall, os seios protuberantes da Fafá mesclados com os de pitomba da Catherine Zeta-Jones; fantasio também que essa leitora-fantasma tenha o jeitinho meigo e principesco da Fátima Bernardes, a silhueta demoniacamente provocante do rosto da Vera Fisher, e a cor inventada dos olhos da Bruna Lombardi, eis aí criada minha Frankenstein às avessas. Idealizei esta mulher e ela escapa de relâmpago da cabeça; é impossível concentrá-la dentro da imaginação.
Um assunto muito, mas muito mais saboroso que o do Coronel Chávez é o da professora britânica, Gillian Gibbons, condenada a 15 dias de prisão no Sudão por permitir uma aluna batizar o inocente ursinho de pelúcia com o nome ultra-sagrado de Maomé. Falta muita pelúcia à lei islâmica que parece, a despeito de isenção religiosa, feita de com nacos de concreto e ingratidão; qualquer dia desses começarei a ler o Alcorão, para melhor poder desdenhar ou aceitar o radicalismo islâmico que até onde sei, não tolera a violência e a intolerância, mas como naquele poema do Pessoa, deixarei a espinhosa tarefa para depois de amanhã.
Muito sudanês pediu não a prisão temporária da educadora, mas sua cabeça, única responsável pela blasfêmia ao deus muçulmano. Ora ora. Provavelmente Maomé não decretaria esta sentença, o problema é que os representantes dele na Terra gostam mesmo é de radicalismo e carnificina. Eu, que ando geograficamente longe do Sudão e longe espiritualmente do Islã, posso dizer sem receio de perder uma tira do meu couro ou ser premiado com umas chibatadas no meu lombo que, caso Maomé conservasse o hábito de ler as notícias terráqueas ficaria lisonjeado com o fato, e como num milagre metafísico, transubstanciaria a blasfêmia em homenagem, arte que o povo do oriente não pode manipular, porque cego pelo excesso de luz ou de escuridão, o que dá no mesmo.
É por isso, cara leitora de nome insuspeito, é por isso que não falo do referendo venezuelano, da chinelada que o povo de lá deu nos planos “bolivarianos” de seu líder megalômano e estúpido, eu como discordo até do estado líquido da água enquanto mole, fico é preocupado quando vejo que quase 50% do povo aceitaria dar ao famigerado coronel plenos poderes para se reeleger eternamente. Eu hein. Vai que os cucarachos que votaram a favor dele estão certos? Vai que o Chavez é a pérola socialista do novo milênio? O resolvedor primaz das mazelas latinas e ultralatinas?
Da mesma forma que não gosto do Chavez e da leitora indefinível também não gosto de gente como eu que se contradiz em menos de uma página; diz que não faz e acaba fazendo. Quero ver se o próximo pedido versar sobre “as necessidades do exame de próstata aos 20 anos de idade, inclusive para madres superioras” ou um pedido menos oneroso como um plano eficaz para acabar com a milenar crise entre israelitas e palestinos, sem aborrecer os islâmicos, claro. Quero ver você se virar, seu sabichão.
Escrito por Alex Menezes às 00h07
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Timão: Lágrima Sem Sal

Faz um tempinho que não presencio uma catarse tão grandiloquënte quanto a vista com o descenso do Sport Clube Corinthians Paulista para a série B. Até mesmo os anti-corinthianos, pessoas tão volumosas e gerais no mundo quanto as pró-corinthianas, maneiraram na tiração de sarro porque se viu que o golpe desferido contra a torcida mais popular da maior cidade do país foi poderoso: doeu tanto que os reflexos foram sentidos no outro lado da dor. Que o bandeirinha que mandou repetir os dois (2!!) pênaltis do Goiás, que ajudou na desgraça corinthiana, é palmeirense ou portador de três pares de colhões é fora de dúvida; não sendo correta nenhuma dessas hipóteses, elevemos o homem à condição máxima de probidade, indicando-o para um cargo no governo petista.
O engraçado, já que tudo é “engraçado” atualmente, o engraçado é que quem sofre, chora, se martiriza, se deprime, se mata, mata alguém, briga na rua e em casa é o pobre do torcedor e, mais danoso ainda, a mulher do torcedor, pagadora oficial e silenciosa dos maus resultados do Corinthians. O dirigente, o jogador, o empresário do jogador, esses passarão o reveillon a bordo de belas mulheres (incrível como são belas e não apanham as mulheres de jogador...) e de champanhe, não permitindo deixar entrar na sua nave qualquer melancolia por tão pífio desempenho no certame nacional.
Paixão não se discute, se sente e fim. Mas chorar copiosamente por um time de futebol, na frente das câmeras e dos parentes, julgo ser um pouco demais. Na verdade é um muito demais. Não creio que um suíço (a Suíça está na moda nesta coluna) se desmanche por um time ou por um golpe esportivo. O subdesenvolvimento do Brasil não explica a paixão; ingleses, italianos, espanhóis também matam e se matam por seus clubes, o que ajuda a explicar que o futebol como manifestação cultural não se explica sócio-economicamente nem de modo nenhum.
A profusão de piadas que durará pelos próximos 365 dias será o ponto alto da estada do alvinegro na segunda divisão, se aceitas, será uma forma de exorcizar o demônio do vexame que lamentavelmente não atinge os políticos nacionais quando flagrados nas suas principais atribuições, as tradicionais ladroagens.
A torcida não merecia o ocaso do rebaixamento, o time e a administração pela ruindade esportiva e burocrática mereciam a punição que se dá a filhos pródigos e desnaturados: o esquecimento. A irracionalidade dos torcedores dos demais times anseia pela estadia eterna ou, para os moderados, permanente do “Timão” na dureza da segunda divisão, esquecendo que a derrocada de um grande clube é na verdade a derrocada ou ao menos a penumbra do próprio futebol, que ficará privado de grandes embates; será que os palmeirenses se contentarão felizes com clássicos entre Palmeiras e Democrata de Sete Lagoas?
Escrito por Alex Menezes às 23h44
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Teatro dos Vampiros

Hoje é um dia histórico. Estou embriagado. Li tanta matéria sobre a nova tecnologia da TV Digital que fiquei com dor de cabeça no corpo inteiro. Não é para menos. A televisão foi uma das maiores invenções do século XX; aproximou mundos, ajudou a construir um império, celebrizou muita gente medíocre, catapultou um sicofanta da obscuridade alagoana para o palácio do Planalto; enfim, fez e aconteceu: a televisão se tornou o principal ícone popular e influenciador do século passado e só perderá sua hegemonia na aurora deste novo milênio para o computador, que também é uma televisão só que com uma língua externa, vulgarmente chamada de teclado.
A primeira revolução que o novo sistema de TV irá causar é no caixa das grandes empresas com a venda do codificador porque o capitalismo carece ou de ideologia para fomentá-lo ou de abuso de lucros.
Mas o grande barato-caro talvez seja a mobilidade que a nova tecnologia trará; ver TV no trem via telefone celular, no ônibus, no parque, onde se estiver. O perigo se esconde nesse talude invisível. Pesquisas norte-americanas mostram que a dependência de televisão atinge níveis alarmantes, causando obesidade, fadiga ocular, etc. Levaremos pílulas de vícios nos nossos bolsos.
Bons ventos podem soprar. Como a geração de conteúdo se tornará mais dinâmica e, em tese, mais democrática – como já ocorre timidamente na Internet que já produz algum conteúdo – há uma possibilidade ainda que remota de os programas se preocuparem com temáticas mais inteligentes (mesmo que sendo obrigada a manter a grade idiotizante para que o negócio sobreviva) e de tal sorte fazer com que a telinha mágica desempenhe um papel não apenas midiático ou informativo, mas, sobretudo, educacional, meio ímpar de se forjar uma nação equânime, livre da chaga da ignorância que faz o Brasil ter um lugar (Foz do Iguaçu) com 251 homicídios por 100 mil habitantes, a Suíça deve ter 0,1 homicídio por 100 mil; mas para que rumo vai este país quando, segundo pesquisa do instituto Ipsus, 50% dos brasileiros não sabem localizar o próprio país no mapa? Para 87% dos entrevistados a Argentina fica na Mongólia e o EUA faz fronteira com Netuno.
Esse será o grande desafio da nova TV. Não, como propalado por “formadores de opinião”, que com a TV Digital se poderá comprar com um click a gravata que o William Bonner apresentar o jornal, ou o batom ocre da Glória (?) Maria, mas que com ela aja, a nova TV, um deslumbre, um alumbramento mesmo, como (comparação incoesa...) o frenesi causado em Rembrandt quando avistou cópias (cópias!) de Caravaggio e a partir dali pintou as melhores telas do século 17; quem sabe não aja escondido nesta “aldeia brasial” um Rembrandt louco e apto para pintar, com a ajuda inexorável da nova TV, um quadro mais proeminente do Brasil não para esta geração, que está condenada, mas para as futuras, que ainda sem existir anda ávida para limpar a barra do atual quadro caótico perpretado por um conjunto de contemporâneos tão ruins que nem uma infusão relâmpago de boas mentes poderia salvar da iminente tragédia.
Escrito por Alex Menezes às 00h08
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